Divide Et Impera: ainda há alguma União Européia?

Não é segredo para ninguém, não precisa ser um professor de geopolítica ou um pós-graduado em economia para saber que há no mundo hoje somente um competidor real da hegemonia americana: União Européia.

Somente a UE é suficientemente influente, culturalmente desenvolvida, militarmente competitiva e economicamente forte (é a maior economia do mundo) para concorrer por hegemonia. E de fato, um mundo exausto e enjoado de tanto americanismo, isso seria bem vindo.

Há outros? Uma China comunista, uma Rússia oriental, uma Índia miserável, o islamismo de qualquer feição? Cuba? Todos tem recursos, possibilidades e capacidade de resistência, mas para os próximos 30 anos nenhum é páreo com EUA a não ser, agora, nesse exato momento, a UE.

A UE é a única economia do mundo com uma moeda capaz de rivalizar com o dólar. Não é uma ideia ou uma possibilidade, é uma constatação.

Contudo, quando vemos o intelectual francês Todd [1] chegar a alertar sobre os alemães, declarando sem rodeios que preferiria servir a uma “hegemonia americana” do que a um suposto imperialismo alemão, ficou claro para mim que a união européia virou o seu oposto, uma desunião anti-européia.

Os governos conservadores alemães, portugueses e espanhóis contra o governo grego, o governo francês contra o governo alemão, o governo britânico contra a UE, a escócia contra os ingleses. Para todo lado que se vê vemos desunião, desagregação e divisão.

As nações europeias disputando a preferência de um “hegemonia exógena” para manter melhores posições na UE. Mesmo ostensivamente humilhada pela NSA, Merkel não levantou um único dedo! Mesmo depois da sub-secretária de Estado dos EUA sugerir que “se foda a UE”, nenhuma voz européia sequer exigiu uma mera retratação!

Humilhada, desrespeitada e enxovalhada por seu maior “aliado”, a UE é hoje somente vergonha, covardia e repulsa.

Se o divisionismo europeu tem karma suficiente para prescindir de qualquer “excepcionalismo” americano, por outro lado, o caso ucraniano provou sem sutilizas, mesuras ou diplomacia a fácil sabotagem de Washington contra união econômica entre a Rússia e a UE.

Eu fico imaginando como os americanos ficaram surpresos ao receber afagos europeus depois de terem sabotado a melhor oportunidade econômica européia desde o Euro.

Depois do Todd todos entendemos, o problema não é mais europeu, mas dos que acreditam numa Europa social como uma alternativa ao modelo americano para o mundo. Todd com certeza não convencerá os EUA a adotar a França como seu vassalo-mor, sabe como é, o francês não soa muito anglo-saxónico! Mas um problema ele resolveu, a ilusão européia recebeu em sua entrevista sua certidão de óbito.

Todd não é culpado de nada, coitado, é apenas o mensageiro.

O futuro da Europa não é o Syriza ou o Podemos, mas o Front National e o Pegida. A UE não será uma futura Grécia, mas uma futura Ucrânia: quebrada, reacionária, corrupta, vassala, dividida, xenófoba, mas sempre romanticamente retratada pelas suas mídias goebbelianas.

Eis a diferença entre o imperialismo e o excepcionalismo americano. Imperialismo é quando os EUA dá golpes de estado, excepcionalismo é quando governos se rendem pacificamente aos EUA. Os europeus acreditam no excepcionalismo americano muito mais do que os neoconservadores conseguem prometer e muito menos cumprir.

Talvez os massacres coloniais da velha Europa esteja agora cobrando o seu alto preço sob a forma de uma suicida ironia histórica ou de uma vassalagem que nem suas ex-colônias se sujeitariam.

O brado europeísta do governo Syriza, ignorado placidamente em nome da prevalência dos mercados, deixou claro que o projeto europeu não sobreviverá sem um projeto social e nem sob um projeto liberal. O liberalismo/monetarismo/austeridade matou a unidade da Europa, agora está matando a própria hospedeira.

A UE tinha dois rumos: seu modelo socialista como alternativa ao neoliberalismo americano, ou se aliarem ao excepcionalismo (ou melhor dizendo, se alinharem ao imperialismo). O bom é que os europeus podem agora provar do próprio veneno aplicado a suas ex-colônias.

Quando um respeitável intelectual da França, um país que até bem pouco tempo atrás se orgulhava de seu europeísmo e sua independência frente aos EUA em plena Guerra Fria, clama por vassalagem: o jogo acabou.

Entenda o problema sob a seguinte perspectiva bem trivial, é mais fácil um socialista chegar o poder nos EUA nas próximas eleições do que o socialismo europeu sobreviver, se é que ele ainda existe. Aliás, já há um candidato nominalmente socialista nos EUA para as próximas eleições presidenciais: Bernie Sanders. Enquanto que se consideramos o que diz a direita americana, eles já estão no poder com a eleição de Obama, Bill de Blasio, Elizabeth Warren e outros “anti-americanos”.

Porque a OTAN ainda existe? Qual a explicação de uma UE sem exército próprio? Porque ainda hoje a Alemanha permanece com bases militares americanas? Porque Edward Snoden ou Assange não foram recebidos por nenhum país europeu? Porque neonazistas ucranianos, ditadores sauditas e terroristas sírios são invisíveis a indignação européia?

Há algo podre na UE, provavelmente é a própria UE em decomposição.

[1] http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2015/05/emmanuel-todd-alemanha-controla-o.html

 
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